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Por que eu sempre me apaixono pelo mesmo tipo de pessoa

Muda o nome, muda a cidade, muda a profissão. Meses depois, a mesma cena está montada de novo: a mesma sensação de estar dando mais do que recebe, o mesmo silêncio na hora de pedir, a mesma decepção com uma pontualidade quase administrativa. A pergunta chega ao consultório quase sempre na mesma forma: por que eu sempre acabo com o mesmo tipo de pessoa?

A pergunta não é sobre gosto

A primeira resposta que se costuma dar a si mesmo é a do gosto: tenho azar, atraio pessoas complicadas, sou ímã de gente indisponível. Essas frases têm algo em comum — todas colocam a causa do lado de fora. A pessoa aparece como quem recebe o que a vida manda, e o mistério fica intacto.

Só que a repetição é seletiva demais para ser acaso. Você conhece dezenas de pessoas. Entre todas, algo em você reconhece uma e diz: é esta. Esse reconhecimento não passa pela consciência. Ele é rápido, corporal, quase infalível — e costuma acontecer antes que você saiba qualquer coisa relevante sobre quem está na sua frente.

Freud deu nome a isso: compulsão à repetição. Não uma escolha ruim feita várias vezes, mas uma tendência a reencenar uma mesma configuração afetiva, mesmo quando ela produz sofrimento. É como se algo insistisse em ser jogado de novo, na esperança de que desta vez termine diferente.

O que se repete não é a pessoa — é a posição

Vale prestar atenção num detalhe: quando alguém descreve seus relacionamentos anteriores, os parceiros muitas vezes são bem diferentes entre si. Um era calado, outro falava demais. Um tinha dinheiro, outro não. O que se repete raramente é o perfil externo. O que se repete é o lugar que você ocupa dentro da relação.

Aquele lugar de quem espera. De quem compreende demais. De quem cuida para não ser abandonado. De quem precisa provar que vale a pena. De quem escolhe sempre alguém que precisa ser salvo — e assim nunca precisa pedir nada para si.

Não é o rosto do outro que se repete. É a cena em que você aprendeu, muito cedo, o que era preciso fazer para ser amado.

Essa cena costuma ser antiga. Não no sentido de culpar os pais — a psicanálise não é um tribunal de família. Mas no sentido de que todo mundo aprende, nas primeiras relações de que dependeu, uma gramática do afeto: o que se pode pedir, o que é preciso engolir, o que custa amor, o que custa aprovação. Essa gramática não se apaga quando a pessoa cresce. Ela vai junto.

Por que insistir em algo que dói

Aqui está a parte que parece contraintuitiva. Se a repetição faz sofrer, por que ela persiste?

Porque a repetição não busca o prazer. Ela busca o domínio. Há algo, numa experiência antiga que não pôde ser elaborada — uma ausência, uma exigência excessiva, um amor que só vinha sob condição —, que ficou sem tradução. E aquilo que não encontra palavra tende a voltar em ato. A pessoa monta de novo a situação difícil não porque goste, mas porque uma parte dela ainda tenta resolver o que ficou em aberto. Desta vez eu consigo. Desta vez ele fica. Desta vez eu sou suficiente.

Há também um conforto perverso no familiar. Uma relação em que você sabe exatamente como sofrer é, de certo modo, mais previsível do que uma em que você não sabe como se comportar. Pessoas que cresceram em ambientes instáveis costumam achar o cuidado tranquilo estranhamente sem graça — ou até desconfiável. Não é masoquismo. É que o corpo aprendeu a chamar de amor aquilo que chegava misturado à tensão.

Não basta descobrir o padrão

Muita gente chega à terapia já sabendo nomear o padrão. Leu, ouviu num podcast, percebeu sozinho. E se frustra: entendi tudo e continuo fazendo igual.

Entender é pouco. A compreensão intelectual funciona como um mapa da cidade; ela não muda a rua onde você mora. O padrão se sustenta em afetos que não se dissolvem com explicação — vergonha, medo do abandono, uma lealdade silenciosa a alguém do passado, uma culpa que nunca foi nomeada.

O que muda a repetição é o trabalho lento de dar palavra ao que ainda está mudo. E isso acontece, principalmente, quando a repetição aparece dentro do próprio processo terapêutico — quando você se vê tentando agradar o analista, ou temendo decepcioná-lo, ou esperando que ele diga o que fazer. Ali, a cena antiga se apresenta ao vivo, e pode ser olhada em vez de apenas vivida mais uma vez.

O que se ganha ao romper o ciclo

Não é a promessa de encontrar a pessoa certa. Seria desonesto prometer isso, e a psicanálise não trabalha com garantias amorosas.

O que se ganha é margem de escolha. Aquele reconhecimento imediato, aquele "é esta" que acontecia antes de qualquer reflexão, passa a ter um intervalo. Um segundo de dúvida. E é nesse intervalo que a escolha deixa de ser um destino e volta a ser uma decisão.

Muita gente percebe primeiro pelo negativo: começa a se desinteressar por pessoas que antes achava irresistíveis. Não porque ficou exigente, mas porque aquele tipo de intensidade era feito do medo de perder — e o medo diminuiu. O que antes parecia paixão revela-se, em retrospecto, uma forma antiga de ansiedade.

Se você reconheceu sua história aqui, vale um cuidado: a resposta não está em decidir "nunca mais" ou em ficar sozinho até estar curado. Está em escutar o que sua escolha vem tentando dizer há tanto tempo, num espaço onde ela possa ser dita sem pressa e sem julgamento.

Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

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Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online.