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Quando a dor não aparece no exame: o corpo que fala pelo sintoma

A dor está ali todo dia. Você procurou o clínico, depois o gastroenterologista, depois o neurologista. Fez sangue, ultrassom, ressonância. Está tudo normal. E então vem a frase que muita gente já ouviu e que soa como uma porta se fechando: "não tem nada, deve ser emocional".

"É emocional" não quer dizer "não existe"

Essa frase costuma ser dita com boa intenção e recebida como acusação. Quem a escuta entende: você está inventando. E sai do consultório médico com dois problemas em vez de um — a dor, que continua, e a suspeita de estar exagerando.

Convém desfazer isso logo. A dor é real. A gastrite arde de verdade, a enxaqueca incapacita de verdade, a taquicardia acontece de verdade. Dizer que um sintoma tem participação psíquica não significa dizer que ele é imaginário. Significa que a origem daquele funcionamento não está numa lesão que o exame consiga fotografar.

Aliás, exame normal e corpo saudável não são a mesma coisa. O exame detecta lesão e alteração bioquímica. Ele não detecta um corpo que vive há três anos em estado de alerta.

O corpo diz o que ainda não tem palavra

A clínica psicossomática parte de uma ideia simples de enunciar e difícil de aceitar: quando uma experiência não consegue ser pensada, sentida ou dita, ela não desaparece. Ela precisa ir para algum lugar. E às vezes o lugar é o corpo.

Isso não é metáfora poética. É observação clínica repetida há mais de um século. Certas pessoas — não por fraqueza, mas por história — têm menos acesso à própria vida emocional. Descrevem o dia em detalhes e o sentimento em nenhum. Perguntadas sobre como estão, respondem o que fizeram. Não é má vontade; é que aquele canal nunca foi muito exercitado. Quando falta a via da palavra, sobra a via do corpo.

O sintoma não é o inimigo. Muitas vezes ele é a única forma que a pessoa encontrou de dizer que algo não vai bem.

Os disfarces mais comuns

Na prática, alguns quadros aparecem com frequência: dores de cabeça que começam sempre no fim da tarde de domingo; problemas gástricos que somem nas férias e voltam na segunda semana de trabalho; tensão no pescoço e nos ombros que nenhuma massagem resolve por mais de dois dias; crises de intestino em véspera de reunião; alergias e dermatites que aparecem em época de conflito familiar; um aperto no peito que já levou ao pronto-socorro mais de uma vez com eletrocardiograma limpo.

Repare que o padrão interessante não é o sintoma em si — é a sua agenda. Ele tem hora, tem estação, tem contexto. Quando alguém consegue perceber que a dor tem calendário, já deu o primeiro passo: o sintoma deixou de ser um evento aleatório e virou algo que responde a alguma coisa.

Por que justamente essa parte do corpo

É uma pergunta que os pacientes fazem muito, e não existe uma tabela de correspondências. Desconfie de listas que dizem que o joelho significa orgulho e a garganta significa palavras engolidas. Isso é reconfortante e falso.

O que a escuta clínica costuma encontrar é algo mais singular. A parte do corpo que adoece frequentemente tem uma história pessoal: era onde a mãe adoeceu, era o que doía na infância quando a atenção era escassa, é o órgão associado a uma perda, é a região ligada a uma função que a pessoa tem medo de perder. O sentido, quando existe, é dela — não de um dicionário.

O que fazer com isso

Antes de tudo: não abandone o acompanhamento médico. Isso não é ressalva burocrática. A investigação clínica precisa ser feita e refeita quando o quadro muda, e nenhum trabalho psicológico substitui diagnóstico ou tratamento. O melhor cenário é o dos dois caminhos andando juntos.

O trabalho analítico, aqui, tem um objetivo específico: ampliar a capacidade de simbolizar. Ou seja, ajudar a pessoa a conseguir sentir e nomear aquilo que hoje só consegue somatizar. Isso é lento no começo, porque não se trata de descobrir uma causa escondida e removê-la. Trata-se de construir, aos poucos, um vocabulário afetivo que a pessoa não teve chance de desenvolver.

Costuma-se começar pelo mais concreto: quando dói, o que estava acontecendo antes? Com quem você tinha falado? O que você deixou de dizer naquela conversa? Não é interrogatório — é a reconstrução paciente de uma ponte entre o que acontece na vida e o que acontece no corpo. Muita gente descobre, nesse percurso, que a crise nunca vem durante o conflito. Vem depois, quando tudo já se acalmou e não houve espaço para reagir.

Quando o corpo já não precisa gritar

A melhora costuma ser discreta e por isso mesmo demora a ser notada. A dor não desaparece de um dia para o outro. O que muda primeiro é a relação com ela: fica menos assustadora, menos misteriosa, mais previsível. Depois, com frequência, ela diminui de intensidade. Em alguns casos, cede.

Não porque tenha sido silenciada, mas porque aquilo que ela vinha anunciando finalmente encontrou outro caminho. O corpo grita quando não há quem escute. Quando há escuta, ele pode falar mais baixo.

Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

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Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online.