← Voltar ao blog Brasileiros no exterior

Luto migratório: a saudade que não é só saudade

Há uma tristeza que muitos brasileiros no exterior carregam sem nome. Não é depressão, dizem; não é só saudade, também. É algo que aperta em momentos bobos — o cheiro de um tempero, uma música no fone, a luz de fim de tarde que não é a mesma. A psicanálise tem um nome antigo para isso: luto. Só que este é um luto estranho, porque ninguém morreu.

O que se perde quando se parte

Quem emigra não perde uma coisa; perde uma constelação. Perde a rua, os amigos de sempre, o português falado na padaria, o corpo à vontade num lugar que não exige tradução. Perde também algo mais sutil: a versão de si que existia lá — a pessoa engraçada, articulada, querida, que em outra língua e outra cultura ainda está sendo reconstruída. Freud dizia que o luto não se faz apenas por pessoas, mas por ideais, por pátrias, por abstrações amadas. Mudar de país convoca todos esses lutos ao mesmo tempo.

Um luto sem velório

O luto por alguém que morre tem rito: velório, abraços, datas. O luto migratório não tem nada disso — ao contrário, ele é constantemente desmentido. O Brasil continua lá, as pessoas continuam vivas, a videochamada mostra o rosto de todo mundo. Como sofrer a perda de algo que, tecnicamente, não se perdeu? É justamente essa ambiguidade que torna esse luto tão difícil de elaborar: ele não termina, porque a cada visita, a cada ligação, a perda se reabre um pouco — e se desmente um pouco.

O luto migratório é um luto que a videochamada desmente todos os domingos.

A culpa de quem escolheu

Soma-se a isso um ingrediente cruel: a culpa. “Fui eu que quis vir.” “Estou vivendo o que tanta gente sonha.” “Que direito eu tenho de estar mal?” Quem parte por escolha — por trabalho, por estudo, por amor, por um futuro melhor — sente que perdeu o direito de sofrer a partida. E então o sofrimento, proibido de aparecer como tristeza, aparece de outros jeitos: insônia, irritabilidade, um cansaço que não passa, crises de ansiedade que parecem vir do nada.

Quando a saudade vira sintoma

É aí que vale prestar atenção. Sentir saudade é sinal de que houve vínculo — nada mais saudável. Mas quando a vida no novo país fica suspensa, quando você vive “com a cabeça lá” há anos, quando cada conquista aqui parece não valer porque não foi testemunhada por quem importa, o luto travou. Elaborar não é esquecer o Brasil nem “se adaptar de vez”: é poder carregar o que ficou sem que isso impeça de viver o que está.

O que a escuta pode fazer

Luto se elabora falando — e, de preferência, na língua em que a perda foi vivida. Um espaço semanal de análise, em português, permite que essa saudade deixe de ser um peso difuso e ganhe contorno: o que exatamente ficou? O que dessa perda é irrecuperável, e o que pode ser reinventado aí? Há vida possível entre dois países — mas ela pede passagem pela palavra.

Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

Quer conversar sobre isso?

Atendo brasileiros que vivem no exterior — Estados Unidos, Portugal, Espanha, Inglaterra, Irlanda e outros países — por videochamada, em português. O primeiro contato é simples, sem compromisso. Veja como funciona.

Falar pelo WhatsApp
Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online, incluindo brasileiros no exterior.