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A síndrome do impostor tem sotaque: sobre provar-se duas vezes no exterior

No Brasil, você era bom no que fazia — e sabia disso. Aí veio a mudança: novo país, nova língua, novo mercado. E com ela uma voz que você não conhecia tão alta: “eles vão perceber que você não é tudo isso”. A chamada síndrome do impostor atinge muita gente, mas no imigrante ela ganha um combustível próprio — e vale entender qual.

Provar-se duas vezes

Quem trabalha fora do próprio país carrega uma dupla exigência: provar que é competente e provar que é competente apesar de ser de fora. O sotaque que denuncia antes do currículo, o diploma que precisou ser revalidado, a piada da reunião que todo mundo pegou meio segundo antes de você. Nada disso mede competência — mas tudo isso alimenta a sensação de estar sempre em período de experiência, mesmo anos depois da efetivação.

O recomeço que ninguém viu

Há ainda um luto profissional pouco falado: o da posição que ficou. Muitos brasileiros aceitam, ao migrar, começar alguns degraus abaixo de onde estavam — ou em outra área, ou em subempregos temporários que de temporário vão tendo pouco. E como a narrativa oficial é a do sonho realizado, esse rebaixamento é vivido em silêncio, com vergonha. A pessoa que era referência vira aprendiz, e ninguém testemunhou a passagem: quem ficou no Brasil só vê as fotos.

O impostor não nasce da incompetência. Nasce da distância entre quem você sabe que é e quem você ainda consegue mostrar ser em outra língua.

Quando o ideal aperta

A psicanálise escuta aí algo mais antigo que o carimbo do passaporte. O sentimento de fraude costuma revelar a distância entre o eu e um ideal — e a migração estica essa distância ao máximo. O imigrante frequentemente parte carregando não só as próprias expectativas, mas as da família inteira: é o que “venceu”, o que representa. Falhar, então, não seria falhar sozinho. Com esse peso nas costas, qualquer tropeço vira evidência no processo interno por impostura.

Competência não cala essa voz — escuta, sim

O engano mais comum é tentar resolver o impostor com mais desempenho: mais um curso, mais uma certificação, mais horas. Não funciona, porque a conta nunca fecha — o problema não está na coluna dos méritos, está no juiz. O trabalho analítico vai na outra direção: examinar esse tribunal interno, de onde ele tirou seus critérios, a quem você ainda presta contas — e o que seria, enfim, se autorizar. Não por acaso, é um trabalho que rende especialmente quando feito na língua em que esses ideais foram ditados pela primeira vez.

Cordialmente,
Matheus Vieira da Cunha
Psicólogo CRP 16/7659
Mestre em Psicologia (UFES)

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Matheus Vieira da Cunha, psicólogo e psicanalista em Guarapari
Matheus Vieira da Cunha

Psicólogo Clínico e Psicanalista (CRP 16/7659), Mestre em Psicologia pela UFES. Atende adolescentes e adultos em Guarapari (ES) e online, incluindo brasileiros no exterior.