Muitos brasileiros que vivem fora falam a língua local com desenvoltura. Trabalham, negociam, fazem piada, namoram em inglês ou espanhol. E, ainda assim, quando pensam em terapia, algo hesita: “será que consigo falar de mim nessa língua?”. A hesitação não é frescura nem deficiência de vocabulário. Ela aponta para algo que a psicanálise conhece bem: não falamos apenas com a língua; fomos falados por ela.
A vida prática cabe em qualquer língua. A infância, não
A segunda língua é aprendida; a primeira, herdada. Antes de você dizer qualquer palavra, já falavam de você, com você, sobre você — em português. O nome que te chamavam, os apelidos de carinho e de ferida, as broncas, as canções de ninar: tudo isso se inscreveu antes de qualquer gramática. O inconsciente se estrutura nessa língua primeira. Por isso é comum que alguém fluente em inglês há décadas continue sonhando, xingando e contando em português. São as operações mais íntimas — e elas não migraram.
O que se perde na tradução de si
Falar de si numa segunda língua tem um efeito curioso: organiza demais. A frase sai correta, mas passou pela alfândega. Há uma distância de segurança entre você e o que você diz — útil em reuniões, péssima em análise. Porque a análise trabalha exatamente com o que escapa: o lapso, o trocadilho involuntário, a palavra que veio errada e por isso mesmo veio certa. “Relacionamento” que escorrega em “relação” e “mento”. Esses acidentes preciosos acontecem na língua em que o inconsciente tem intimidade. Na língua estrangeira, raramente há acidente — há desempenho.
Na segunda língua a gente se explica; na língua materna, a gente se trai. A análise precisa da segunda coisa.
Quando a língua estrangeira protege demais
Há quem note o contrário: certas coisas só conseguem ser ditas em inglês, porque em português doeriam demais. Isso também diz muito — a língua estrangeira funcionando como luva, como anestesia local. Pode aliviar num primeiro momento, mas um trabalho que acontece inteiro sob anestesia não toca o que precisa tocar. O ponto não é que terapia em outra língua seja impossível; é que, para um brasileiro, falar em português dá acesso a camadas que a tradução simplesmente não alcança.
Escutar também tem sotaque
E há o outro lado: quem escuta. Um analista brasileiro escuta o que há entre as palavras de um brasileiro — a ironia mineira, o diminutivo que disfarça, o “deixa quieto” que é um capítulo inteiro de história familiar, a religiosidade, o futebol, a novela que formou uma geração. Esse fundo cultural comum não é enfeite: é contexto interpretativo. O que num consultório estrangeiro exigiria dez minutos de explicação, aqui chega inteiro no instante em que é dito.
Um espaço seu, na sua língua
Viver no exterior é passar o dia traduzindo-se. A sessão de análise pode ser a hora da semana em que isso cessa: cinquenta minutos em que você não precisa performar em língua nenhuma — só falar, e ser escutado, na língua em que você se tornou quem é. Se você mora nos Estados Unidos, em Portugal, na Espanha, na Inglaterra ou na Irlanda e sente falta desse espaço, ele é possível: saiba como funciona o atendimento online.